segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Por dentro da alfabetização

15/10 - 12:33
Agência Fapesp

SÃO PAULO – Um estudo feito com ex-guerrilheiros está ajudando a ciência a compreender melhor as regiões do cérebro envolvidas no processo de alfabetização. O trabalho, feito por pesquisadores da Colômbia, Espanha e Reino Unido, revela como a estrutura do cérebro se altera após a aprendizagem da leitura.

A linguagem é uma capacidade unicamente humana que surgiu em algum momento durante os 6 milhões de anos desde que o homem e o chimpanzé divergiram. Mesmo sem ser ensinadas ou na ausência de adultos para tomar como base, crianças desenvolvem sistemas linguísticos sofisticados. Mas a leitura é uma habilidade que se aprende e que não se desenvolve sem ensino e prática.

Compreender como as estruturas cerebrais mudam quando se aprende a ler tem se mostrado muito difícil à medida que a maior parte das pessoas é alfabetizada quando criança, no mesmo período em que aprendem muitas outras habilidades.

Por conta disso, os cientistas enfrentam muita dificuldade em separar as alterações promovidas pelo processo de alfabetização das relacionadas ao aprender a jogar bola ou tocar um instrumento, por exemplo.

O novo estudo, publicado na edição desta quinta-feira (15/10) da revista Nature, superou essas dificuldades ao encarar uma situação incomum: a possibilidade de analisar ex-integrantes de guerrilhas colombianas que estão se reintegrando na sociedade e aprendendo a ler pela primeira vez já adultos.

“Separar mudanças em nossos cérebros causadas pela alfabetização até agora tinha se mostrado impossível por conta de outros fatores. Poder trabalhar com esses ex-guerrilheiros é uma oportunidade única de ver como o cérebro se desenvolve quando a capacidade de ler é adquirida”, disse Cathy Price, da University College London, uma das autoras da pesquisa.

Os autores analisaram imagens feitas por ressonância magnética do cérebro de 20 ex-guerrilheiros que completaram um programa de alfabetização em espanhol. As imagens foram comparadas com as de 22 outros ex-guerrilheiros que não haviam iniciado o programa.

Os resultados revelaram as áreas do cérebro envolvidas no processo de alfabetização. Os autores analisaram também como essas regiões estão conectadas em adultos que aprenderam a ler normalmente, durante a infância.

Os pesquisadores observaram que para quem aprendeu a ler, tanto como adulto como quando criança, a densidade de massa cinzenta (onde ocorre o “processamento” cerebral) é maior em diversas áreas do hemisfério esquerdo do cérebro.

Essas áreas são responsáveis pelo reconhecimento das formas das letras e por traduzir as mesmas em sons e em significados. Ler também aumenta a intensidade das conexões de massa branca (constituída pelas fibras que interligam os neurônios) entre diferentes regiões no cérebro.

O estudo destaca que especialmente importantes são as conexões em uma área conhecida como giro angular. Cientistas sabem há mais de 150 anos que essa região do cérebro é importante para a leitura, mas o novo estudo mostra que seu papel não havia sido corretamente entendido.

Até então, achava-se que o giro angular reconhecia as formas das palavras antes de associar seus sons e significados. O novo estudo mostra que o giro angular não está envolvido diretamente na tradução de palavras visuais em sons e significados. Em vez disso, ele apoia esse processo ao fornecer previsões do que o cérebro espera ver.

“A visão tradicional tem sido a de que o giro angular atua como uma espécie de dicionário que traduz as letras de uma palavra em um significado. Na realidade, mostramos que seu papel é mais uma antecipação do que nosso olho vai ver. É algo parecido com a função de sugestão de texto dos telefones celulares na hora de digitar mensagens”, disse Cathy.

Segundo os cientistas, os resultados do estudo deverão ter importantes implicações na investigação das causas de problemas como a dislexia. Estudos com indivíduos disléxicos apontaram áreas de redução nas massas branca e cinzenta em regiões que cresceram após a alfabetização. O novo estudo sugere que algumas das diferenças verificadas em casos de dislexia podem ser consequência – e não causa – de problemas de leitura.

Programa revela avanços da alfabetização em Minas

Os dias se passavam sem que Ruan Giovani Alves, de 8 anos, aprendesse a ler e escrever. Só conseguiu quando uma professora generosa resolveu escrever exercícios no caderno dele e ensiná-lo as letras, sem permitir que ele deixasse de freqüentar as aulas com alunos da sua idade. Essa lição da professora Maria Cunha de Ardana e outros bons exemplos levaram a Escola Estadual Necésio Tavares, do Bairro Alto Vera Cruz, na Região Leste de Belo Horizonte, a entrar na lista das melhores da capital classificadas no Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa), divulgada quarta-feira. Na rede estadual de ensino, a situação avançou: 72,5% dos alunos com oito anos matriculados no 3º ano do ensino fundamental sabem ler e escrever, contra 48,7% em 2006. Dos 27,5 que ainda têm dificuldade, 13,8% estão na classificação mais baixa: lêem apenas palavras soltas e não conseguem entender a frase.

A Escola Estadual Dr. Ovídio de Andrade, em Ipatinga, no Vale do Aço, é a primeira colocada entre as 2.450 avaliadas, com 719,93 pontos de proficiência em uma tabela com média de 500 e máximo de 800. A meta da Secretaria Estadual de Educação é acabar com a categoria de pior colocação até 2010 e chegar a 89% de crianças lendo e escrevendo segundo critérios recomendáveis para a idade. Para a secretária estadual, Vanessa Guimarães, é preciso comemorar os avanços de 2006 para cá, quando o resultado começou a ser medido no mesmo padrão. O aumento do percentual de alunos de escolas estaduais que mostram conhecimento recomendável é estímulo para a busca de avanço maior. “Já foi uma vitória e sabemos que, ao propor meta para melhorar, estamos nos lançando diante de uma aventura que vai exigir de todos um esforço grande.” Entre os alunos da rede municipal, os que tiveram desempenho recomendável foram 57%. Apesar de estar abaixo da média estadual, houve melhoria com relação aos 42,7% de 2006.

Para tentar melhorar os índices, a secretaria mantém 200 especialistas para ajudar as escolas a montar estratégias. O Proalfa tem informações de todos os municípios, todas as escolas e cada aluno. Recursos para reformas físicas também são liberados, segundo ela, principalmente para escolas do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha. A classificação no exame acompanha a pobreza das regiões do estado. Das 46 superintendências de educação, a de Pirapora, no Vale do São Francisco, está na lanterna. As melhores colocadas são a de Monte Carmelo, no Alto Paranaíba, que lidera a lista da rede estadual, e a de São Sebastião do Paraíso, no Sul de Minas, primeira colocada entre os avaliados de escolas municipais. A secretária admite que as classes iniciais estavam fora do foco do governo. “Não apenas em Minas, mas no país todo foram criados modelos e houve o afrouxamento do sistema que permitiu formar crianças que não sabiam ler.”

Bom exemplo

Não foram recursos nem facilidades que levaram a escola Necésio Tavares a ocupar a boa posição em BH, com 654,85 pontos de proficiência. Depois de conversas com a equipe e de comprovar que havia jovens de até 14 anos que não conseguiam compreender frases, a diretora Marli do Carmo de Melo resolveu mudar. Tomou coragem para fazer um levantamento com a opinião dos pais sobre a administração, abriu as portas da escola para eles, instituiu encontros festivos para confraternização dos professores e reativou a biblioteca com empréstimos estendidos à comunidade.

Mensalmente, ela aplica um simulado aos alunos, instrumento usado para reavaliação. “Mas o melhor mesmo é ter amor por isto aqui, saber ouvir críticas e dividir tudo com a equipe”, diz, revelando o segredo para manter boa qualidade no ensino de 668 alunos (100 deles em horário integral) em uma área pobre e com poucos recursos. Recompensa que pode ser percebida no desenvolvimento do pequeno Ruan. “Gosto de animais e não falto à escola”, resume o menino curioso, que tem um tempo diferente dos outros, mas consegue ler um texto de seis frases.


Fonte: Estado de Minas

Videos sobre Alfabetização e letramento

Estes são links de vídeos bem interessantes sobre Alfabetização e Letramento confiram...


http://www.youtube.com/watch?v=asS512CgmNo

http://www.youtube.com/watch?v=zwri7pO8UHU&feature=related

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Debate sobre o uso da Internet

19/11/2009 - 08h34

Com vídeo à frente, tráfego na web deve crescer seis vezes até 2012

da Folha Online

O tráfego na internet vai aumentar seis vezes até 2012 em relação a um período de cinco anos, devido ao aumento na visualização e na postagem de vídeos on-line. A previsão foi dada em um fórum sobre internet na quarta-feira (18).

De 2007 a 2012, "o tráfego irá crescer em sêxtuplo", disse o vice-presidente da Cisco durante o Internet Governance Forum (IGF, na sigla em inglês), que ocorre no Egito durante esta semana.

Tráfego na internet vai aumentar seis vezes até 2012 em relação a um período de cinco anos, devido ao uso de vídeos on-line
Tráfego na internet vai aumentar seis vezes até 2012 em relação a um período de cinco anos, devido ao uso maior de vídeos on-line

"[O tráfego] está crescendo 46% ao ano, e [o crescimento] é conduzido pelo vídeo", disse. "O vídeo é o condutor. Não há questões a se fazer sobre isso."

O vídeo supera barreiras de linguagem, conteúdo local e alfabetização, diz ele, enquanto usuários interagem mais facilmente com a internet.

O fórum no Egito reúne mais de 1.500 representantes do governo, sociedade civil, ONGs e setor privado de mais de cem países, com o intuito de discutir o futuro da internet.

Nós perguntamos: Você faria uso da internet com turmas em processo de alfabetização?

Livro sobre Alfabetização Infantil

12/11/2009 - 08h15
Processo da alfabetização infantil é tema de livro e debate
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da Folha Online


Acontece nesta quinta-feira (12), o lançamento do livro "Emilia Ferreiro: Uma Concepção do Desenvolvimento da Escrita e da Criança" (Ed. Vozes,2009). Na ocasião, haverá ainda um debate com a autora do livro, Marilia Claret Geraes Duran. O evento acontece a partir das 18h na Livraria Cortez.

A obra traz uma discussão dos estudos da psicóloga argentina Emilia Ferreiro, uma das mais importantes pesquisadoras dos processos de aquisição da língua escrita pelas crianças, com ênfase na produção de textos escritos de maneira autônoma.

As ideias de Emília Ferreiro revolucionaram a pedagogia porque desviou o enfoque do "como se ensina" para o "como se aprende", colocando a escrita como objeto sócio-cultural de conhecimento e tirando da escola o monopólio da alfabetização. A partir de então o professor passou a perceber que o que a criança pensa da escrita também influencia na aprendizagem. Desta forma, caiu por terra a crença de que a alfabetização começava e acabava entre as quatro paredes da sala de aula e que a aprendizagem do aluno dependia tão somente da aplicação correta de um método de como se deve ensinar a ler e a escrever.

O livro "Emilia Ferreiro" trata do início da aquisição da língua escrita, segundo uma perspectiva psicolingüística e cognitiva, onde a criança vai descobrindo as propriedades da escrita através de um processo construtivo e o desenvolvimento desta aprendizagem varia de criança para crian

Ensino de nove anos

08/11/2009 - 09h45
Ensino fundamental de nove anos sacrifica lazer, dizem estudos
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RICARDO WESTIN
da Folha de S.Paulo

Das escolas que já adotaram o ensino fundamental de nove anos, parte fez a adaptação impondo pesados sacrifícios às crianças mais novas.

Pesquisas em diferentes Estados mostram que nessas escolas os alunos de seis anos perderam parte considerável do tempo destinado a brincadeiras e atividades ao ar livre. Agora ficam debruçadas sobre livros, exercícios e até provas.

Especialistas alertam que isso pode ter efeito devastador no desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.

As escolas hoje dividem o ensino fundamental em oito séries. No ano que vem, todas --públicas e particulares-- deverão seguir a lei que prevê a reorganização em nove anos.

O ano extra foi colocado no início do ciclo. A criança passará a entrar no ensino fundamental com seis anos, não mais com sete. Assim, quem ia para a pré-escola irá para o primeiro ano. A primeira série se transformará no segundo ano.

Muitas escolas se adiantaram e já seguem a lei. O problema é que algumas limitaram-se a impor às crianças de seis anos os mesmíssimos conteúdos que antes ensinavam às crianças de sete. Os esforços se concentram em ensiná-las a ler, escrever e fazer contas. As brincadeiras, comuns na velha pré-escola, ficaram em segundo plano.

As professoras e pesquisadoras Iraíde Marques de Freitas Barreiro (da Unesp em Assis), Maria Silvia Librandi da Rocha (da PUC de Campinas) e Catarina Moro (da UFPR em Curitiba) chegaram a conclusões parecidas ao estudar escolas que já adotam o novo modelo.

"As atividades lúdicas ficaram restritas ao recreio, que não raramente dura 15 minutos", diz Maria Silvia. "A criança tem seis anos, mas já é tratada quase como adulto, com muita cobrança", afirma Iraíde.

Um dos problemas é o fato de os professores não terem sido preparados para conduzir essa nova turma. Seguem mais o modelo da primeira série que o da pré-escola, sem o devido equilíbrio, por pressão de pais que desejam a alfabetização precoce e por pressão do sistema educacional --a Provinha Brasil avalia crianças de sete anos, do novo segundo ano.

"Antes era o professor da segunda série que cobrava o da primeira para que os alunos chegassem alfabetizados. Agora é o professor do segundo ano que pressiona o do primeiro", afirma Catarina, da UFPR.

O MEC confirma a falha dos colégios. "Estamos oferecendo orientações, explicando que o brincar é importantíssimo", diz a secretária de Educação Básica, Maria do Pilar Lacerda.

Ela esclarece que o resultado da Provinha Brasil não é divulgado e, mesmo sendo negativo, não gera punições. Serve apenas para orientar a escola.

Outro problema apontado pelas pesquisadoras é a falta de adaptações e reformas nas escolas para receber adequadamente às crianças de seis anos.

fonte: Folha online

Entrevista Anne-Marie Chartier

Ano VI - Nº 20 - Oralidade, alfabetização e letramento - Julho
Entrevista
Anne-Marie Chartier
Para a francesa Anne-Marie Chartier, alfabetizar é um ofício que, mais do que uma boa base teórica, requer muito trabalho prático e interação com outros profissionais. Para a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica, sediado em Paris, considerar que o conhecimento teórico basta pra ensinar as crianças a ler e escrever é uma ideia infundada. "Seria o mesmo que imaginar que se pode aprender a tocar piano lendo tratados de musicologia", compara. Nesta entrevista, concedida com exclusividade à Pátio Educação Infantil, Anne-Marie Chartier fala sobre alfabetização e letramento com a clareza e o conhecimento da realidade nacional que já são familiares a muitos educadores brasileiros, tanto por sua presença em diversos eventos quanto por seus livros publicados. Leia a seguir os principais trechos.
Alfabetização na prática

Alfabetização e letramento são conceitos diferentes?

Tradicionalmente, a alfabetização era definida como a capacidade de decifrar de modo correto um texto, oralizando-o. Não significava necessariamente compreendê-lo: as crianças que sabiam decifrar o Credo ou o Pai-Nosso não precisavam explicar o significado dessas orações. Já os "letrados", que na época eram os clérigos, sabiam ao mesmo tempo ler e explicar esses textos. Quando os ingleses inventam a palavra literacy, que durante muito tempo não teve equivalente nas línguas latinas dos países católicos, eles designam a "cultura primária", os saberes acerca da escrita (a ortografia, a gramática, o cálculo escrito) e, mais tarde, "os saberes de base" (os primeiros elementos de história, de geografia ou de ciências ensinados na escola). Com as avaliações internacionais, como o PISA, foi necessário inventar palavras para designar esses saberes de base: littéracie ou letramento.


Na prática, o que significa o surgimento desse novo conceito?

Toda alfabetização é realizada sobre textos que vão constituir uma primeira cultura escolar. Não é a mesma coisa que ela seja construída sobre textos religiosos ou morais, ou sobre textos instrutivos e informativos, ou ainda sobre pequenas narrativas ou textos divertidos tirados da literatura para crianças. Os saberes ligados à alfabetização sempre ultrapassam a simples decodificação. A grande mudança decorre de que o teste que mostrava que o indivíduo sabia ler, ou seja, que era alfabetizado, era a leitura em voz alta. Com as avaliações modernas, mede-se se o aluno, criança ou adulto, sabe ler no sentido de compreender o que significa o texto, lendo as respostas escritas que ele deu a questões escritas no texto. O que se chama de "saber ler" no segundo caso está ligado ao letramento, não à alfabetização.


Essa distinção é relevante no processo de alfabetização de uma criança?

Em cada época, o processo de alfabetização realiza-se sobre os suportes escolhidos pela instituição. Nos próximos anos, se as competências das crianças forem avaliadas não em papel, mas em telas de computador, o que se chama "saber ler" hoje talvez não seja mais considerado como um "saber ler" suficiente. Essa distinção é importante para definir o que subentende o termo letramento em determinado período. O letramento de hoje não é mais o dos anos 1900, mas talvez pareça arcaico em 2100. Portanto, é fundamental para o professor, que é o responsável pelo ensino, saber claramente qual o desempenho a que deve visar.


Qual é o papel da educação infantil no processo de ensino da leitura e da escrita?

Penso que, na França, as aprendizagens pré-escolares desempenham um papel muito importante: sem a escola maternal, os resultados dos alunos seriam bem mais medíocres. Quando chegam à pré-escola, entre 6 e 7 anos, as crianças já cursaram três anos de escola maternal. Elas sabem segurar um lápis, sabem o que é um exercício, conhecem os rituais de vida de uma sala de aula, aprenderam a se expressar em grupo, ouviram a leitura de livros ilustrados, conhecem refrões, músicas, poesias: tudo isso constitui uma cultura da escrita e dos saberes escolares consideráveis. Quando vejo as classes de alfabetização do Brasil, percebo claramente essa diferença. Nas escolas privadas, as crianças têm o mesmo nível que na França, às vezes até um nível melhor; porém, nas escolas públicas populares que visitei, pude constatar, de modo geral, um a dois anos de defasagem, o que é normal.


O que pode ser considerado importante no desenvolvimento da criança para o aprendizado da leitura e da escrita?

Quando uma criança aprende a ler e a escrever, e essa é a situação mais frequente na escola, pode-se dizer que todos os elementos constitutivos da aprendizagem "funcionaram bem". Quais estão ligados ao desenvolvimento da criança? Quais dependem de fatores externos? É difícil dizer! Há fatores sensoriais (a criança ouve e enxerga bem?), fatores de maturidade psicológica, análise do funcionamento da escrita, capacidades de memória, habilidades gráficas, etc. O que impressiona é que muitas crianças que têm "tudo para fracassar" aprendem, enquanto outras que têm "tudo para vencer" fracassam: é preciso considerar, portanto, que as coisas não são mecânicas e que o papel dos professores também é fundamental.


Quais são as condições favoráveis para que uma criança se alfabetize? E qual é a importância de que as crianças convivam com diferentes portadores de leitura e escrita desde muito pequenas?

As pesquisas mostram que o nível de escolarização dos pais é um dos fatores mais importantes para o êxito escolar das crianças. Contata-se isso hoje com a chegada à França de populações imigrantes analfabetas: as crianças podem muito bem aprender a ler e a escrever, mas os casos de fracasso são numerosos, sem dúvida porque as práticas familiares não podem reforçar as aprendizagens feitas em aula. Quando uma mãe vai às compras no supermercado com os filhos, é diferente se ela compra ervilhas em conserva lendo o que está escrito na embalagem, ou olhando a foto, ou pedindo aos filhos que leiam o que está escrito na embalagem. No primeiro caso, a criança vê como procede uma mãe leitora e procurará imitá-la; no segundo caso, ela aprende que pode "se virar" sem ler e não será tentada a reinvestir o que aprendeu; no terceiro caso, ela vê que a leitura de que é capaz pode ajudar sua mãe analfabeta a não se deixar enganar por uma imagem e será estimulada em suas aprendizagens.


Em que medida o fato de ter alguém que lhes conte histórias e disponibilize o contato com livros de literatura infantil pode contribuir na construção da leitura e da escrita pelas crianças?

Contar histórias para as crianças ajuda a que aprendam a ler, pois nossa escola privilegia esse tipo de texto nos manuais. Se tivéssemos uma escola que privilegiasse um outro tipo de texto, por exemplo, as descrições "científicas", como certos manuais dos anos 1880-1920 na França, os contos continuariam sendo muito valiosos para ajudar as crianças a crescer, mas não serviriam em nada para aprender a ler. As crianças sempre são favorecidas quando já têm uma ideia do que vão encontrar em um texto (é sobre "a vida dos camelos", "Branca de Neve", "um acidente de carro"). Elas antecipam uma "construção geral do texto" que evita que se fixem em cada palavra − e ficariam muito surpresas se os três textos começassem por "era uma vez".


Existe diferença entre ler histórias em um livro e contá-las de memória?

Ler histórias para crianças não é recontar histórias. As releituras habituam a criança a que o texto seja fixo, qualquer que seja o leitor, enquanto uma narrativa oral pode ser sempre a mesma sem que as palavras sejam exatamente iguais. Nesse sentido, as crianças aprendem que um texto não é algo que se adivinhe ou que se invente a partir de uma trama, mas que é uma realidade muito impositiva que exige que cada palavra seja respeitada, o que é um fator bastante tranquilizador, graças justamente a essa estabilidade. Ao mesmo tempo, essa fixidez do texto não impede "interpretações" diferentes na entonação, na acentuação, na dicção, nas ideias que suscita, etc. Por isso, é importante reler em sala de aula textos já conhecidos, como os pais fazem em casa com os filhos.


Atualmente se fala muito de iletrismo, sobretudo na Europa. Como isso se relaciona com os processos de aprendizagem escolares da leitura e da escrita?

O grau de iletrismo de uma população é sempre definido em função das exigências sociais em matéria de leitura-escrita de determinada época. Evidentemente, no século XXI, quando qualquer procedimento administrativo exige preencher formulários, quando para tomar um café você precisa ler as instruções sobre a máquina antes de depositar uma moeda, quando você precisa fornecer um currículo para qualquer emprego, até para ser faxineira, a definição do iletrismo não é mais a mesma! É por isso que as exigências em relação à escola evoluem.


Como esse processo ocorre na prática?

Na França, todo mundo pensava que a escola ensinava de forma suficiente até os anos 1950-1960. Porém, após essa data, considera-se importante prolongar os estudos de todos até os 16 anos e garantir a continuidade do estudo dos filhos. O resultado é que, depois de alguns anos, todo mundo pensa que a escola primária não ensina bem as crianças a ler e escrever. O que poderia parecer um êxito em certo período é considerado como um fracasso quando a escola precisa adaptar-se às novas exigências sociais. Está claro que hoje a alfabetização das novas gerações requer que elas sejam capazes de ler e escrever em computador, de consultar as bases de dados da internet. A definição está mudando mais uma vez. É possível que, em 20 anos, não seja mais com a literatura infanto-juvenil que se ajudará melhor as crianças a entrar na cultura escrita escolar e social.


Durante muitos anos, a discussão mais significativa sobre alfabetizar as crianças era a opção por um determinado método (fonético, palavração, de contos, silábico, etc.). Que rumo tomou essa discussão hoje?

As pessoas continuam discutindo e brigando a esse respeito, mas eu tenho dificuldade de compreender o porquê. Parece-me que isso se deve ao fato de cada discurso privilegiar uma dimensão da aprendizagem e esquecer-se de falar das outras. Todavia, quando se olha de perto a sala de aula, constata-se que todos os professores fazem as crianças trabalhar com múltiplas entradas. Do contrário, elas não aprenderiam a ler! Nenhum professor sensato contenta-se em fazer decodificação de sílaba ou reconhecimento direto de palavras inteiras. Assim, pode-se dizer que todos trabalham utilizando uma via "fônica", mas também "silábica", na decomposição oral das palavras, mas também "global", pois nenhum método de leitura apresenta unidades desprovidas de sentido para começar: vai-se de palavras lidas "globalmente" para sua decomposição, quer se trate de nomes de crianças, de palavras simples escritas sob imagens, etc.


O que, então, caracteriza um bom método de alfabetização?

A meu ver, é o modo como um professor alterna quatro tipos de situações pedagógicas: aquelas em que ele procura fazer com que toda a turma leia para conhecer o sentido de um texto; aquelas que são "situações-problema" para refletir sobre a maneira como "o escrito codifica o oral" ou como "o oral é transcrito"; aquelas que permitem consolidar certas aprendizagens, automatizar aquisições (os exercícios em que em cada criança deve desempenhar-se individualmente); aquelas em que as crianças tentam ler ou reler sozinhas os textos ao seu alcance, sabendo que podem pedir ajuda. Todos os professores visam, no fim das contas, a que as crianças consigam ler "sem esforço", isto é, de forma automática. Para isso, sempre é necessário fazer muitos exercícios de treinamento e um trabalho bastante regular, quase rotineiro. Mas o que ficou muito claro nestes últimos 30 anos foi o seguinte: quando se propõem esses exercícios a crianças que não têm uma "cultura escrita" e não compreendem sua função, isso exige delas um esforço terrível e geralmente em vão. Isso faz com que tomem horror pela leitura. Como dizia Rousseau, falando daquele pequeno aluno do século XVIII, empanzinado de exercícios silábicos inúteis: "De que lhe servirá a leitura depois que o fizerem rejeitá-la para sempre?".


Na sua opinião, qual deve ser a formação de professores com relação à alfabetização?

O conhecimento teórico não é suficiente para saber ensinar as crianças. Seria o mesmo que imaginar que se pode aprender a tocar piano lendo tratados de musicologia. É preciso, portanto, ter uma formação prática. Fazer trabalhar toda uma turma, mobilizá-la, saber utilizar bem um livro, qualquer que seja, guardar na memória o desempenho de cada aluno para adaptar suas exigências, tudo isso requer muito mais tempo, mesmo que se possa ganhar com a convivência com professores experientes. Costuma-se considerar que uma boa formação "acadêmica" tornará os professores mais competentes. Eu sou menos otimista. Penso que o ofício de alfabetização requer uma formação profissional específica, feita de alternância entre trabalho prático, discussão sobre o que se faz, o que se leu, o que as crianças souberam fazer ou não, mas sobretudo de interações com outros profissionais.

Fonte: Revista Pátio online